A força da confissão

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O impressionante filme A pedra de paciência (Afeganistão, França, Alemanha, Reino Unido, 2012), conta a história de uma jovem e bela mulher. O filme começa com ela conversando ativamente com seu marido. Até aí, nada de mais. Porém, um fato chama atenção: o marido, em estado vegetativo, é incapaz de dialogar, ou mesmo esboçar qualquer reação, devido a uma bala alojada no pescoço.

O marido, um herói de guerra, típico opressor dos países islâmicos fundamentalistas, havia sido abandonado pelos companheiros do Jihad e por sua família de origem, contando apenas com a esposa, que o mantém vivo de maneira muito precária.

A esposa, personagem central da história, enquanto realiza os cuidados junto ao corpo inerte do marido, segue contando a ele todos os seus sonhos, fantasias e segredos.

Se, na maioria das culturas os sentimentos femininos são ainda muito negligenciados, no Afeganistão, um país misógino, este fato atinge proporções de barbárie, pois qualquer afegã que ousar expor seus sentimentos, poderá ser literalmente morta. A sutileza da história é que a personagem principal aproveita o estado vegetativo do homem, somado ao ambiente de sigilo, e principalmente a presença física de seu “ouvinte”, para abordá-lo com um nível de intimidade nunca antes experimentado, a fim de legitimar instintivamente sua própria existência como mulher.

Ocorre que, a partir desta estranha conversa, a protagonista trava, em verdade, um diálogo inédito consigo mesma, realizando em si o que parece ser uma religação profunda com sua própria subjetividade, por meio da confissão.

Então, algo parece se transformar: as expressões faciais da mulher retomam um colorido, a medida em que vai dizendo sobre si com muita honestidade, o brilho feminino vai aparecendo, gradualmente.

A principal mensagem do filme talvez esteja justamente neste ponto, em que fica claro a força do falar de si, e para si, de maneira honesta e profunda.

Quando falamos de modo interiorizado, ou seja, para dentro, ouvimos a nós mesmos. Se tivermos um interlocutor, alguém pronto a nos ouvir de modo silencioso, sem julgamentos, então algo parece acontecer, e podemos “nascer” novamente.

Carl Gustav Jung denomina numinoso o termo correspondente a aspectos ativos e vivenciais de cunho religioso. O termo religião, aqui, em latim significa religare, ligar novamente. Na psicologia, a experiência numinosa do falar de si poderá promover um constante renascimento simbólico.

O numinoso é o achado, é aquele alívio imediato sentido na alma. O numinoso seria resultado da busca incessante do ser humano ao religare. Em suma, é aquela vivência translúcida, carregada de emoções indecifráveis, e que normalmente passa a habitar para sempre em nossa memória afetiva.

Enfim, o contato consigo mesmo, por meio da própria história oral, poderá emergir carregado de energia. Neste sentido, atos confessionais, quando acolhidos genuinamente, primeiramente por nós próprios, em seguida por outrem que escolhermos como testemunha, poderão promover autonomia e maturidade psicológicas em nossa personalidade.

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