A loucura entre nós

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Especialista em Psicopatologia Clínica e Psicanálise Contemporânea.

Em tempos de tantas diversidades e verdades, propor um pensar sobre o normal e o anormal pode ser uma tarefa complexa.

Aquilo que historicamente era estabelecido por normas e critérios, mesmo que não de maneira fácil, pois um dos grandes desafios sempre foi estabelecer as fronteiras entre o normal e patológico, se a pessoa se enquadrasse era tido como normal e se não se enquadrasse anormal. Tal operação tornou-se mais complexa na contemporaneidade, com múltiplas vias de manifestações de si, do próprio saber e pensar.

Um dos exemplos de critérios para a definição do normal e anormal são os manuais de diagnósticos, assim comportamentos possivelmente desviantes, passaram a ter um lugar nestes manuais, constituindo tal comportamento como patológico.

Estes manuais foram desenvolvidos a partir de uma realidade da época, portanto, vão evoluindo e se adequando conforme a cultura, sociedade e pessoas se transformam. Ou seja, as pessoas mudam e o que era considerado anormal há tempos atrás, hoje não é mais.

Com a psicanálise e psicologia psicodinâmica, a pessoa pode construir nas sessões sua verdade, a partir da linguagem. Ela vai reconstruindo sua história, a percepção sobre si e sua vida, com isso, o que era tomado para si como “anormal”, pode passar a ser “normal”, levando em conta um sentimento tido como fora do comum de alguma forma.

Afinal, quem sabe da sua própria verdade? Os conceitos normal ou anormal, estabelecidos por normas e critérios, poderiam distanciar a pessoa de si? Por outro lado, múltiplas verdades construiriam o que? Pessoas dispersas e individualistas? As pessoas precisam de parâmetros gerais para conviver em sociedade?

normal ou anormal, estabelecidos por normas e critérios, poderiam distanciar a pessoa de si? Por outro lado, múltiplas verdades construiriam o que? Pessoas dispersas e individualistas? As pessoas precisam de parâmetros gerais para conviver em sociedade?

Tais questionamentos se tornam importantes, pois se partimos do ponto que estamos inseridos em sociedade, em tempos de redes sociais e exposição de vidas, percebemos que a dicotomia indivíduo/grupo se faz bastante tênue.

A loucura vem de uma concepção social que dita o que é normal e/ou patológico, dentro de uma sociedade onde o significado de loucura inclui tanto um fenômeno social da estigmatização, quanto o que pode existir de essencialmente individual na loucura.

Atualmente o campo da saúde mental é um lugar de muitos discursos, vivenciando-se tanto o discurso da perspectiva médica, quanto o do social, do político e do analítico, sendo este último inserido na lógica do caso a caso, ou seja, em cada indivíduo.

A psicanalista Fernanda Otoni de Barros-Brisset, ao falar sobre o filme “A Loucura entre nós” (de Fernanda Vareille – inspirado no livro de mesmo nome de Marcelo Veras) explana:

“...de forma geral, as pessoas se defendem é da loucura de cada um, da loucura entre nós. É da forma imprevista, inominável, incalculável como cada um porta o seu ponto de loucura sem sentido, e que pode se manifestar na forma de atos insanos, em certa desordem, em palavras que saem sem pensar ou em atos que chocam. Não há nada mais humano que isso. Isso é para todos!”.

Talvez nossa maior lição seja aprender a lidar com a perspectiva real que se impõe a cada dia e que nos lança o desafio de responder sem compreender num tempo que não é o nosso e sim de cada um, e deixar a pessoa concluir algo sobre si na condução de sua vida, marcando seu estilo. Neste sentido, caberia a cada pessoa buscar seu conceito de normal, e se representar diante disso.

Sabemos que as pessoas precisam falar, se responsabilizando pelo mal com que se queixam, seja este normal ou anormal, construindo o seu sentido e direção.

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