Do “deserto do luto”

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Psicóloga – CRP 06/90086 (FFCLRP-USP), Mestre em Ciências – Área: Psicologia (FFCLRP-USP) e Especialista em Psicologia Clínica (CFP), Professora, Supervisora e Diretora de Ensino do Instituto de Estudos Psicanalíticos de Ribeirão Preto – IEPRP. Atende criança, adolescente e adulto. Consultório em Batatais e Ribeirão Preto .

Li uma entrevista que de tão sensível, tocante, profunda e doída, chega a marejar os olhos, arrepiar os pelos e doer o coração. Fala sobre a difícil travessia do luto de uma mãe ante a perda de seu filho de apenas 11 dias de idade, publicada no jornal Zero Hora em 2015.

A gravidez em si já provoca mudanças, não apenas físicas, mas também mentais, são meses que transcorrem e, com eles, a possibilidade de se construir, constituir-se e de nascer uma mãe, além do bebê. Como esse, mãe e pai, recém-nascidos, veem-se diante de inúmeros desafios, um mundo novo que se abre, com suas expectativas e também seus medos. Mas, para a mulher de que trata a entrevista, um mundo pós-parto com todas as suas consequências no corpo e na mente, mas de uma mãe – e pai – sem o seu bebê. Uma experiência que convoca conviver com a vida e a morte, lado a lado, em sua mais íntima contradição.

Não bastasse a dor da perda, sinais concretos anunciam algo de difícil compreensão e elaboração – a barriga que estava, mas não mais está ali, um bebê, então, que nasceu, mas de braços de mãe vazios sem a correspondente presença dele. Como aparece na entrevista, mãe e pai tendo que lidar com perguntas sem respostas, com reações diversas que partem do “como se nada tivesse acontecido” até mesmo justificativas de que “melhor ter sido assim” na tentativa de se lidar com a dor. Falar de perda, morte e luto, afinal, gera constrangimento. Reações essas indicativas da nossa dificuldade de lidar com nossos sentimentos e com situações reais de muita crueza e dureza. Em uma sociedade em que predomina a imagem da felicidade, a tristeza e o luto dificilmente encontram morada.

Um caminho que ajudou a entrevistada foi compartilhar com pessoas que viveram a experiência de perda, tornando a travessia menos solitária. Não que alguém possa passar pela experiência no lugar do outro. Como a entrevistada se refere, “a travessia do deserto do luto” é única para cada um, um processo que não passa a não ser que se passe por ele. E não que passe no sentido de acabar, e sim, de ressignificar, de oferecer abrigo a uma experiência anteriormente sem forma, impensável, que, por vivê-la, permite construir um lugar em que a experiência possa habitar, dentro de nós. Algo de acolhedor, que acolhe a dor, podendo acomodá-la e abrigá-la.

Sensivelmente, toca também o ponto da “culpa do sobrevivente”, que, apesar da perda da morte do filho, a mãe ainda vive, não sem, mas também com dor, coexistindo felicidade e tristeza, ao mesmo tempo. Estamos tão acostumados ao modo binário, à lógica da exclusão (ser feliz ou triste), mas ele não dá conta das nossas experiências de e na vida. A entrevistada fala ainda do poder voltar à vida após um contato abrupto com a morte. Para ela, esse tipo de experiência não faz temer menos a vida, mas sim ter menos medo da morte, por, de algum modo, já ter feito contato com ela. Esse retorno não se dá sem modificações, é como se pudéssemos parir uma parte nossa, ainda não antes nascida, é quase um parto de algo e alguém modificado pela experiência da perda, um exercício individual e intransferível; assim como uma gestação, o luto exige tempo. De novo, morte e vida, severinas.

O “deserto do luto” é, pois, um deserto como uma metáfora. Em seu sentido substantivo, como uma região – da mente – árida, e também como um adjetivo, já que percorrer este terreno exige transitar por áreas inóspitas, desabitadas e inabitáveis, desconhecidas, incertas, vazias, abandonadas, zonas essas de muito desamparo. Como um deserto, o clima do luto também é seco, árido, em que se experimenta uma amplitude térmica, uma variação da temperatura emocional entre extremos, transitando-se por momentos acalorados, de raiva, revolta e indignação, gélidos de intensa tristeza, solidão, e isolamento, em movimentos ora de esfriamento, ora de aquecimento do coração.

Mas, assim como a travessia de um deserto, o luto também pode ser percorrido estando acompanhado. Na relação com o outro se pode tentar viver as emoções e colocar em palavras sensações e sentimentos impensáveis e sem nome, oferecendo-se algum contorno continente às experiências de perda e luto. Poder entrar na dor e senti-la, poder se entristecer e se recolher, mas também se refazer, recuperando a possibilidade de pensar e de se sentir vivo, podendo transitar por esses diferentes estados da mente. Para não se viver em luto, há que se viver o luto, cruzando-se espaços internos que possam ser transformados e ressignificados, o que só acontece na e através da nossa própria travessia.

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