O Brasil respira?

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O jargão conhecido foi utilizado em propaganda do governo Temer em maio de 2018. Com a imagem de um relógio travado no mesmo horário, outra publicidade do atual governo trazia o seguinte discurso: “Dois anos atrás o Brasil estava parado no tempo. A economia parou e a população ficou paralisada com a crise. Desemprego, desordem, desesperança, mas a gente não podia perder tempo”. Assim que o ponteiro do relógio volta a andar, a propaganda exalta supostas mudanças empreendidas a partir de 2016, com os dizeres: “Fizemos as reformas, avançamos, e hoje o País já começa a sair da crise. Hora de seguir em frente. No fundo, você sabe que melhorou.”

Gostaria de acreditar na dita propaganda. Pensar que, de fato, o Brasil respira novamente. Mas a realidade me parece diferente disso.

Vejamos,
O pai que não deseja o filho, mas tem a responsabilidade da fecundação na mulher?

O cidadão que reclama da limpeza pública, mas deixa o entulho no terreno do vizinho ou na rua, porque paga imposto e o Poder Público é o responsável pela limpeza de sua propriedade?

A empresa que participa de licitação com mais três ou quatro e “acerta” para ganhar essa e na próxima o outro ganhar, ou que deixa uma “gratificação” para o funcionário que a “ajudou”?

O ex-namorado que expõe fotos da então namorada após o término do namoro?

A autoridade pública que usa da famosa “carteirada” para benefício próprio?

O sujeito cristão, que frequenta a missa ou culto, e hostiliza o irmão?

Que Brasil é esse que melhorou? Será que respira novamente?

Qual o papel que queremos adotar? Ou melhor, qual o papel que deixamos de adotar até aqui?

Vamos continuar agindo como interlocutores malucos, vaidosos, o que eu digo tem peso maior sobre o que você diz?

A ética, segundo Aristóteles, constituiu uma visão sistemática e integrada do conhecimento, com a valorização da ciência empírica, da ética e da política. Aristóteles divide o conhecimento da seguinte forma: prático (práxis), produtivo (poiesis) e teórico. O conhecimento prático abrange principalmente o estudo da ética e da política. A ética é um saber prático e pressupõe três elementos fundamentais da filosofia aristotélica: o uso correto da razão, a boa conduta (eupraxia) e a felicidade (eudaimonia).

Para Aristóteles, a felicidade está ligada à atividade humana, sendo um tipo de atividade em conformidade com a “reta razão” e com a virtude (areté). Isso quer dizer que a vida virtuosa é racional.

A felicidade implica a educação da vontade em conformidade com os princípios racionais da moderação e, finalmente, está fundamentalmente ligada à política, uma vez que o homem é definido como animal político e sua conduta ética tem expressão na pólis e a partir dela é julgada. É na sociedade – na pólis – que os homens podem alcançar o bem supremo: a felicidade, daí porque, em Aristóteles, ética e política são inseparáveis. “A política que também é uma ciência prática não se dissocia da ética, elas apenas se diferenciam pelo fato de a primeira apresentar uma dimensão social, coletiva, enquanto a outra se restringe ao particular, individual” (AMARAL; SILVA; GOMES, 2012, p. 12).

[…] Razão, ética e política são elementos inseparáveis, constitutivos do homem em Aristóteles. Por um lado, a característica de ser racional o conduz à vida política. A vida política, por sua vez, norteará o bem viver ou o viver ético deste homem, que terá como expressão mais própria desta boa vida a própria vida racional. Conclui-se, assim, um círculo virtuoso que para existir não pode prescindir de nenhum destes três elementos que lhe são constitutivos (PANSARELLI, 2009, p. 14).

A importância dada por Aristóteles à vontade racional (a vontade guiada pela razão como elemento fundamental da vida ética), à deliberação e à escolha o levou a considerar uma virtude como condição de todas as outras e presente em todas elas: a prudência ou sabedoria prática. O prudente é aquele que, em todas as situações, é capaz de julgar e avaliar qual a atitude e qual a ação que melhor realizarão a finalidade ética, ou seja, entre as várias escolhas possíveis, qual a mais adequada para que o agente seja virtuoso e realize o que é bom para si e para os outros.

Também devemos a Aristóteles outras contribuições importantes no campo da reflexão sobre a ética e a moral, principalmente a partir de sua obra Ética a Nicômaco, onde o mesmo procurou refletir sobre as virtudes que constituiriam a arete (a virtude ou excelência ética) e a moralidade grega. Com sua bem conhecida teoria da virtude como justa medida, Aristóteles distinguiu vícios e virtudes pelo critério do excesso, da falta e da moderação. É no Livro II da Ética a Nicômaco que Aristóteles apresenta sua conhecida doutrina da virtude como um meio, da “doutrina da mediedade (mesotês), ao deixar evidente que a virtude é uma espécie de mediedade, na medida em que visa um meio, meio este entre o excesso e a falta” (HOBUSS, 2015, p. 38).

Voltando ao tema central, em meio a tantos fatos e ocorrências, será que não é chegada a hora de todos os cidadãos, de diferentes raças, credos, classes sociais e convicções, mudarem também conceitos e comportamentos?

Não é chegada a hora de lançarmos um compromisso conosco, com os outros, com as gerações que virão para um estado de alerta máximo? De que estamos todos adoecidos pelos nossos próprios comportamentos? Pelas nossas ações e principalmente pelas nossas omissões?

Será que não é chegada a hora de pararmos de fazermos julgamentos e olharmos mais para dentro de nós mesmos, das nossas famílias e nossa comunidade e cuidar, e ajudar? Será que não chegamos até aqui baseados em julgamentos em excesso?

Será que dentro do seio das nossas relações de amizade e familiares não fomos promotores, juízes e sentenciamos cada um a todo tempo?

Será que não é chegada a hora de sermos mais advogados de defesa e trabalharmos contra as condições sociais geradores das mazelas sociais como a violência, a corrupção, a exploração, vicissitudes dos que estão à margem da sociedade?

Se estamos imbuídos em reformar o indivíduo, por qual razão não alinhamos a mudança em sociedade também?

Façamos diferente, porque até aqui todo mundo quer melhorar o Brasil, desde que, claro, ninguém mexa nas suas próprias “cousinhas”.

Eu quero um Brasil que respire. Para isso, é preciso que meu vizinho possa respirar o mesmo ar que eu.

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