Recordar para não viver: Ditadura nunca mais.

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Sempre que vejo pessoas pedindo intervenção militar no Brasil, sinto um misto de raiva e pena. Raiva porque sei que, embora seja uma minoria, algumas dessas pessoas são beneficiadas por esse discurso, promovem-se em eleições graças a ele, ou, falando ainda de um grupo minoritário, foram beneficiadas pelos vinte e um anos de ditadura militar, e não se importam com a injustiça e a violência que imperaram naquela época.

No entanto, não penso que esse seja o caso da maioria dos que clamam pela volta dos militares ao poder. Muitos dos que reproduzem essa ideia são, no meu entendimento, ingênuos. Não viveram um dos períodos mais amargos da história do país, ou, se o viveram, não tiveram consciência das atrocidades que eram praticadas contra a população, uma vez que a censura não permitia. Falo sobre corrupção, repressão política, sequestros, torturas, estupros, mortes. Mortes. Pessoas inocentes morreram por não compactuarem com o governo. Famílias procuram até hoje seus entes desaparecidos. Crianças foram detidas e torturadas junto a seus pais, como os irmãos Samuel Dias de Oliveira, Luis Carlos Max, Zuleide Aparecida e Esnesto Carlos Dias do Nascimento, que tinham idade entre 2 e 9 anos. Outro caso foi o de Ana Lídia Braga:

“A menina Ana Lídia Braga tinha 7 anos quando foi sequestrada, torturada, estuprada e morta em Brasília, em setembro de 1973. Foi encontrada enterrada, nua, nas proximidades da UnB. A investigação do caso foi rapidamente abafada quando começaram a vir à tona suspeitas de que o filho do então Ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, estaria envolvido no crime.

A presença de nomes influentes dentro do governo militar foi desconversada pelo regime, alegando que tudo não passava de uma boataria promovida pelos “subversivos”. Em 1974, a ditadura emitiria uma ordem expressa à imprensa proibindo novos comentários sobre o crime. O processo relacionado ao Caso Ana Lídia acabou sendo arquivado sem que se avançasse nas investigações”.

Não consigo pensar que pessoas boas e justas possam estar de acordo com tais absurdos, que violam completamente a dignidade humana (gostaria de pronunciar “direitos humanos”, sem que por isso me chamassem de defensora de bandidos e me mandassem ir para Cuba). Sou contra a tortura, em quaisquer circunstâncias. Não compactuo com o bordão “bandido bom é bandido morto”, mas deixemos essa questão para outro texto. Quero enfatizar que estão equivocados aqueles que pensam que a ditadura foi ruim apenas para bandidos e “baderneiros”. Crianças estão entre as vítimas. Jovens estudantes, como Edson Luís. Mulheres grávidas. Indígenas e quilombolas. Vladimir Herzog. A grande maioria desses crimes foi abafada, sem que os responsáveis pagassem por eles.

Além da violência, que já deveria ser o bastante para que jamais quiséssemos reviver o passado, o regime militar trouxe-nos problemas no âmbito econômico. É verdade que houve um aumento significativo do PIB, no “milagre econômico”, relembrado por muitos como uma qualidade do período. Porém, a dívida externa bruta desmitifica essa falácia – o Brasil devia a bancos e governos estrangeiros cerca de 53% de toda a renda gerada no país. Outrossim, o “milagre” escondeu o crescimento exorbitante da desigualdade social, o que demonstra que as elites (falo em elites mesmo, não na pequenina classe média que havia na época), principalmente as norte-americanas, foram as beneficiadas pelas medidas governamentais, em detrimento do restante da população. É ingênuo também alegarmos que não havia corrupção. Não nos esqueçamos dos escândalos de Delfim Netto, Paulo Maluf, Sarney (ele são filhos da Ditadura, ok?), do suposto envolvimento do delegado Fleury com traficantes, das obras superfaturadas, como a rodovia Transamazônica (BR-230) e a hidrelétrica de Tucuruí.

Não podem ser motivados por pura crueldade os textões no facebook. As mensagens nos grupos do WhatsApp. Os argumentos esdrúxulos nos almoços de família. Julgaríamos nazista ou insano um alemão que nega a veracidade do holocausto. Um brasileiro comum que diz não ter havido ditadura é insano, e, se clama pelo militarismo, parece muito menos com um nazista do que com um judeu pedindo a volta de Hitler.

Sei que estamos passando por um momento caótico, em todos os sentidos (político e socioeconômico). Mas há também um problema ideológico que não pode ser ignorado: Por que precisamos de um messias? Por que queremos que alguém ou um grupo tome as rédeas do país por nós? Ao mesmo tempo em que condenamos os políticos e assumimos que a população merece um governo muito melhor, clamamos por uma forma de governo que nos tira todo o poder democrático. Lembremo-nos de Nelson Rodrigues, que detectou na população um “complexo de vira-latas”. Podemos melhorar esse pensamento. Já é hora de pararmos de repetir que “brasileiro não tem jeito” e que precisamos de uma intervenção. Isso não significa conformarmo-nos com a conjuntura atual, pelo contrário, é preciso mudá-la. Sem salvadores da pátria, e, principalmente, sem um golpe nos traria retrocessos imensuráveis. Caso contrário, jamais avançaremos no curso da história, viveremos à espera de heróis fardados e seremos eternamente enganados por milagres falaciosos.

Fontes:
https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2015/04/01/conheca-dez-historias-de-corrupcao-durante-a-ditadura-militar.htm.
https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/29/economia/1506721812_344807.html
Brum, Maurício. “Seis crimes hediondos cometidos contra crianças durante a ditadura militar”.

Disponível em:
http://www.gazetadopovo.com.br/ideias/6-crimes-hediondos-cometidos-contra-criancas-durante-a-ditadura-militar-50sx6odlxx04sngz56ridwdmm

Em valores de hoje, dívida externa deixada pela ditadura militar atingiria US$ 1,2 tri, quatro vezes a atual