“Se o motivo é emocional, por que dói a minha dor?

213 0

Atualmente, a dor é vista como uma tortura, quando não eliminada pelos meios científicos. Estamos numa época na qual evitamos a dor, por consequência o sofrimento. Escolhe-se sentir pouco, pelo temor de sentir demais. As novas tecnologias prometem imunizar a vida, através de métodos que aumentem a insensibilidade; evitando a dor da perda, o medo da mudança, a doença e assim “fechar os poros” para o real. Isolando as pessoas de inúmeras sensações, matéria-prima do nosso viver.

Sentir dor faz parte da nossa peculiaridade humana e no processo evolutivo teve um papel importante para a sobrevivência. É um alerta sem dor cessariam os sinais de sofrimento, e teríamos serias complicações. Não há como viver sem ela.

O corpo reflete e comunica em sentimentos, sensações e pensamentos o que está inscrito nos tecidos, músculos, paredes corporais, desde a fase intrauterina. Os eventos positivos ou negativos são acumulados, reprimidos e guardados no inconsciente. Assim, a dor também faz parte do nosso conteúdo emocional, por esta razão, devemos aprender e articular o bom uso da sua presença, não é meramente um estímulo sensorial.

O sofrimento é significação, transitando pela individualidade e vivência de cada um no meio particular, cultural e da história, revelando um padecer tanto corporal quanto psíquico, é indissociável.

Deste modo, evidenciamos as somatizações, as quais têm um elemento psíquico em sua origem. É um sintoma orgânico, provocado por problemas emocionais, como a tristeza, angústia, solidão, medo e outros. E nestes casos particularmente, a evidência é dada pelos resultados dos exames laboratoriais sem alterações, o físico está em ordem.

Isto traz muita confusão, mas o corpo não mente, há um sofrimento, não há o que tratar com medicamentos. Por isto a indicação é psicoterapêutica. Assim, sem provas, sem marcas, sem sinais visíveis, pode ser interpretado pelo senso comum como mania de doença, exagero, fingimento e às vezes até pejorativamente como “frescura”. Um exemplo clássico seria a síndrome do pânico, a qual apresenta uma série de sinais físicos, entre eles dores generalizadas, taquicardia, desconforto abdominal, sem haver nenhuma patologia presente.

Uma manifestação psicossomática, apresenta dores que aparecem de diferentes formas físicas, na sua origem estão presentes o estresse e a pressão emocional colaborando na intensidade dos sintomas. E, por vezes, são detectadas alterações clínicas nos exames, como: gastrite, alergias, asma, fibromialgia e outras doenças.

A dor corporal também pode afetar a mente, causando em alguns casos, a depressão.

Se a dissociação do corpo e da alma persiste, o paciente desconhece a importância em legitimar sua dor para ser superada. A dor emocional também é corporal, é real, concreta, não é imaginada ou dói menos. E pode estar associada a situações traumáticas vivenciadas na infância. O motivo da dor pode ser emocional, mas, dói!

Poder expressar e dar significado a esta dor, traz um efeito regenerador. Se o paciente se entregar aos cuidados terapêuticos poderá elaborar outras sensações, sentindo seu corpo e confiando no que sente.

Para lidar com as dores, a linha da Terapia Psicocorporal Morfoanalítica, de origem francesa, criada por Serge Peyrot, propõe o trabalho da unidade corpo/mente. Integrando no mesmo quadro terapêutico a escuta sensorial e o trabalho corporal, com a análise do conteúdo emocional e psicoafetivo das tensões musculares. Integrando o corpo e a palavra.

Trabalha no campo das somatizações e das manifestações psicossomáticas. Também como nos casos de rigidez muscular, escolioses, ciáticas, problemas digestivos, respiratórios. Na gestação e no pós-parto. Pessoas com dificuldades psíquicas passageiras e/ou profundas. Em casos de estresse, hipertensão, angústia, estados depressivos ou apáticos, transtornos do sono, falta de concentração.

Dentro da clínica morfoanalítica a demanda pela dor é sempre presente e significativa. Revelada em situações de muito sofrimento, ofensivas para o esperado equilíbrio corporal, podem evidenciar como foram tratadas as dores na infância.

Por muitas vezes o paciente não reconhece a origem do seu sofrimento. O terapeuta morfoanalista questiona o paciente a partir das suas sensações, utiliza a escuta empática e profunda, sem indução, para ele entrar em contato com sua percepção corporal, emocional e sensorial e refletir sobre o aparecimento, o início da sua dor.

Na terapia morfoanalítica compreende-se a manifestação psicossomática de forma particular, personalizada, única para cada indivíduo. Respeitando sua história.

Concentra-se mais no que o corpo mostra e sente e menos no que ele relata, mas dando a devida importância ao conteúdo desta fala. O paciente pode permanecer no silêncio; mas não no vazio, em contato com seu mundo interno. Cada encontro é único, intenso e real.

Trabalhamos assim, consciência corporal de toque/presença, volume, peso e consciências relacionais com o objetivo de “derreter” defesas, bloqueios e abrir “frestas” em corpos enrijecidos, deprimidos, protegidos ou temerosos de sentir/ser.

A pele recebe “técnicas simples, porém profundas”, consideradas “ferramentas” para estimular, despertar e fazer desabrochar a sensorialidade. É uma qualidade humana instrumentalizada na técnica de terapia morfoanalítica. Dentro de um quadro estruturado, previsível, porém ativo.

O toque promove cuidados maternais que remetem as vivências da primeira infância. E a construção da confiança torna-se crucial, pois é um aspecto que o paciente pode não ter vivido neste período da sua vida. A ideia principal é de nutrir, preencher o corpo de atenções, com toque terno e cuidadoso conferindo um novo ritmo, movimento e amparo.

Com o trabalho de consciência corporal e integração, a dor vai se transformando em sofrimento e este pode ser expresso através das emoções. Interrompe o circuito de somatização, num processo consciente e criativo de autoconhecimento e superação.

Sinta e escute seu corpo… ele não mente!
Saiba mais: www.terapiamorfoanalitica.com.br